domingo, 15 de janeiro de 2012

Valsa Da Morte

(Paulo Roberto)

Eu vou lamber teu túmulo enquanto a chuva cai.
O céu ferrugem carregando a dor do véu caído enquanto a marcha rugia.
Eu era o pai, sabor do pecado, agulha perdida entre os oceanos.
Eu era a madeira que envolve teu corpo, a gota da vida, a cor dos teus lábios.

Eu carreguei a cruz com aroma de vinho.
Eu socorri teus filhos bastardos, setembro...
Eu construí a morada da tua esperança,
Eu lambi tuas pernas e dancei a valsa da morte.

Você morreu antes de poder chorar.
Teu salto quebrou antes do ultimo degrau.
Você estava imóvel quando minha cama foi tocada pela luz do sol
Mas a lua nos mostrou os passos, os movimentos e ensinou,
Morada sem vida,
Que o sorriso tem mais valor do que toda a dor.

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O tom violeta era propagado para fora de si.
A máscara, as penas e o tecido...
A luz no teto escuro, cheiro de flores secas no chão espelhado.

A música era alta, e as risadas...
Tudo estava claro como a neve.
Mas teus olhos eram cobertos,
E eu nunca soube o que havia ali.

Eu toquei tuas costas e teu cheiro me veio.
Eu caí em tua cama como um monstro.
Mas antes a noite seguiu, com teus passos curtos e sorriso sereno.

O relógio badalou por nove vezes,
Teus fios lisos e castanhos estavam imóveis.
Tua pele lindamente fria e tua voz, melodia encantada.

E a música agora era mais rápida,
O barulho da chuva era a camada para a dor.
O vestido em minhas mãos,
Minha boca e teus arrepios, a eterna dupla que se calou naquela noite.

Linda, velha feia. És tão bela...
Dance como a Besta dançaria,
Pule como o fogo faria,
Deslize sobre o palco como eu faria.

Morda e arranhe, beba e sugue.
Ouça meus pecados e peque comigo.
Viva para morrer esta noite.
Morra em meus braços, mas não me leve contigo.

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Eu vou lamber teu túmulo enquanto a chuva cai.
Eu lambi tuas pernas e dancei a valsa da morte.
Mas a lua me mostrou o inferno e me carregou até o salão.
Eu dancei por toda noite sem beber uma única gota.
Você me olhou e sorriu, com os pecados em desenvolvimento.
Agora ferva enquanto escorro.
Beba a vida, dance com a morte.
Deixe correr, deixe ir...

1, 2, 3, 4...
Deixe ir, deixe ir...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Manhã de Domingo

(Paulo Roberto)

Eu só queria rodar pela estrada fria
Com teus sonhos destinados para dentro do luar.
Quatro minutos e o céu será tingido com a lágrima tão bonita...

Como eu queria estar contigo neste dia,
Eu precisava por as mãos para me acalmar.
Como eu queria estar no alto deste mapa
Onde teus sonhos, esperando, vão brotar.

Sempre em frente, Som agudo.
Manhã de domingo.
Arrepios, céu profundo.

O marcador agora é exato.
O tempo está gargalhando sem parar.
Por que, Oh Deus...?
Por que é tão difícil esperar o sol começar a brilhar?

Onde está você, criança?
Por que demora? Por que não corre?
Como eu queria estar contigo, deitado.
Esperando tuas mãos me cobrirem de graça.

Sempre em frente, estrada escura.
Manhã de domingo...
Durma serena, como um anjo.

Corro para o interior das nuvens,
Vôo para o lar da chuva.
Profecias seladas, caindo, sem mais brilho.
Use teu cheiro para enfeitiçar.
Caindo, a grama é tão falha...

As estrelas, onde estão?
Por que você não está entre elas?
Eu não posso mais olhar para teu brilho.
Corra para o meu mundo.
Eu estarei lá.

Onde está o prazer de guardar
As imagens como elas devem ser?
Onde está o prazer de cantar?
Traduzir para a música
O que meu coração diz quando pulsa...

Do que adianta chorar?
Você não está aqui para secar minhas lágrimas.
Siga em frente, minha criança.
Toda a estrada é tua.

Sempre em frente, som agudo.
Manhã de domingo...
Durma serena, céu profundo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

61

(Paulo Roberto)

Quero teus lábios com sabor de vinho.
Quero teu corpo coberto por couro.
Quero tuas pernas grudadas em meu pescoço,
Quero teus suspiros quebrando o silêncio.
Quero tuas unhas sangrando minha alma,
Quero tuas mãos descobrindo o caminho.
Quero tua boca brincando com fogo,
Quero tua lingua alimentando meus sonhos.

Deixe-me trazê-la para perto, sinta minhas mãos e o desejo.
Deixe-me percorre-la sem destino, puxe-me outra vez e sorria.

Quero teus olhos fechados,
Quero tua cama molhada.
Quero teu coração pulando,
Mas preciso que continue pulando.
Quero tuas coxas marcadas
Quero meu cheiro nas paredes.
Quero lamber tua nuca
Quero ouvir teus segredos.

Deixe-me leva-la ao inferno, deixe-me fazê-la gritar.
Deixe-me mostrar-lhe o céu, abra as pernas e faça.
Deixe-me ditar o teu ritmo, dê-me as costas outra vez...
Deixe-me puxar teu cabelo até que teus olhos estejam escondidos.

domingo, 27 de novembro de 2011

Gotas De Dor

(Paulo Roberto)

Eu sou a rosa perfumada que te toca
O vento noturno que move teu olhar.
O cheiro doce que teu travesseiro tem,
O lírio entre os lobos,
O som do amor.

Você é o espinho do caule magro.
A dor da morte,
A figa da vida,
O pêssego envenenado.
Criança da lua,
Demônio amaldiçoado.

Leve-me para o inferno.
Gotas de dor em teus lábios.
Grite por prazer e morda minhas coxas.
Beba a vida e drene meu sangue.

Eu sou a chuva que corre
A vida tecida com agulhas ensangüentadas.
Eu sou o anjo que te acompanha,
Besta faminta, pobre criança.

Você é a dor, o tridente e o trono.
O Cálice de Vinho e o sino que nunca toca.
Maçã avermelhada, pele ferida.
Tarde sem fim.
A areia da ampulheta que nunca desce.

Leve-me para casa.
Lágrimas de dor em meus olhos.
Grito de pavor enquanto limpa minhas feridas.
Lamba minha pele e sugue meu calor.
Voando baixo, para o alto das montanhas.
Somos o som do mar e do leito.
Mãos amarradas e corpos colados.
Pulse comigo em cada coração vivo.

Grite comigo e sorrirei para ti.
Grite enquanto canto.
Case-se com a solidão e eu encontrarei a estrada.
Você será solitária como as gotas...
Um por um, um por um...
Deixe na memória o que eu fui.
Você rasgou meu peito fraco.
Deite-se sobre ele e ouça o silêncio.

Sou a beleza em cada olhar,
Tu és a dor em cada lágrima.
Somos a construção do tempo sobre um solo fértil.
Somos o céu noturno e o mar revolto.

Sou a besta que é consumida pela dor.
És o anjo que machuca minha alma.

domingo, 6 de novembro de 2011

Rastros De Linha

(Paulo Roberto)

Olhe para mim, senhorita.
O que sente?
Meu sorriso é retribuido com zelo.

Pisque teus olhos apenas mais uma vez.
Apenas mais uma vez...
Não deixe o sorriso morrer.

Mate-me antes que tua lágrima escorra.
Fere quem te dá tudo o que precisa ter.
Aqui está agulha e aqui está a linha.
Use-as para nos costurar.

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Fio por fio, você rasga o que costurou.
Você colhe de outro acre o que planetei em ti.

Você teve medo de se entregar, você teve medo do conforto dos meus braços.
Você teve medo do que meus lábios poderiam fazer,
Você teve medo do que meu toque poderia custar.
Você temia a angústia da perda... Mas você nunca teve nada.

Pensamentos regados de dor e desejo,
Fantasias maníacas com meu corpo a cada noite.
Rasgue minha carne outra vez, Inocência.
Você esqueceu minhas palavras, meu olhar e minha dor.
Atue como naquela tarde tão quente, em que teu vestido, grudado,
Era tão pesado quanto tua dúvida.
Decore um texto tão ridículo quanto aquele...
Teu lábio queima.

Queime todas as memórias.
Não existem fotos, apenas fatos.
Recolha os rastros de linha
Espetarei as agulhas em tua cruz.
Carregarei comigo o cheiro da inocência
E o sabor da desgraça.
Teu lábio queima.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Teu

(Paulo Roberto)

Sente minhas mãos tocando tua pele?
Sente o meu cheiro cobrindo o ar?
Meus lábios tocando teu rosto a cada segundo,
Teu sorriso iluminado refletido em meu olhar.

Sente o calor do meu corpo calado
Cobrindo a cor do luar?
Dançando entre as sombras duras,
Sonhando com o altar.

Durma, Minha Pequena, meus braços são teu lar.
Durma, Meu Amor... Sorria quando acordar.
Sonhe, Minha Linda, continuarei a te acariciar.
Desperte, Minha Vida... Para sempre irei te amar.

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Longe, além das nuvens e dos lagos escuros.
Enquanto dormimos, selados pela noite,
Nos encontramos, sedentos, mais um sonho.
Corremos pelos campos de linha, tecidos pelos pensamentos.
Dançamos ao som das vozes, dos sussuros de cada madrugada.
Saboreamos os frutos do desejo, as uvas da saudade
...as maçãs do amor.
Você me olha com o mesmo brilho, você me toca com o mesmo calor.
As unhas cravadas... relva molhada. Os dentes rasgando o que sempre foi teu.
A Marca dos teus sonhos no peito que pulsa, a vida que marcha nas veias do teu anjo.
Carregue-me em tuas mãos para teu colo abençoado,
Sorria e perfume meu coração que grita dentro de ti.

...Abra os olhos, Tai!
São meus beijos!

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Sorrindo você me olha, me acalma...
Mais um dia que nasceu para te fazer rainha.
Abrace-me e sinta, tudo é teu.
Te darei a eternidade, minhas asas... A proteção e dedicação.
Procure pela beleza que existe dentro de mim.
Encontre nas palavras os desejos de um sonhador...
Tente ver que minha vida está no teu amor.

domingo, 11 de setembro de 2011

Querida Amiga

(Paulo Roberto)

Quando acordar sem saber o que fazer,
Apenas grite e irei te socorrer!
Estou aqui para não te deixar cair.

A todo tempo, qualquer momento...
Irei ao inferno para te fazer sorrir.
Apenas ande e iluminarei a estrada.

É minha luz, raio que me guia.
Ombro delicado que aguenta o peso de minhas dores.
A pétala mais bela d'um jardim encabulado e fechado.

Estou aqui, querida amiga.
Estou aqui para aplaudir os teus feitos,
Para encorajar as loucuras,
Curar os medos e te fazer sorrir.

É só correr, estou aqui, surgindo.
É só olhar e sentir tudo o que temos.
Lembre-se de todos os momentos difíceis...

Sorria agora, já é passado.

Então me diga, queria...
Do que você precisa hoje?

Abrace-me quando precisar de coragem.
Abrace-me quando conseguir vencer.
Então me diga, queria...
Como imagina o meu abraço?

Estou aqui, querida amiga.
Estou aqui para te ajudar a crescer!
Para ajudar a curar todas as dores da vida.
Para subir cada degrau...

É só correr, estou aqui, surgindo.
É só olhar e sentir tudo o que temos.
Lembre-se de todos os momentos difíceis...
Sorria, tudo é apenas passado.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ponteiro

(Paulo Roberto)

Você acorda e sente o sol no rosto.
O "Tic-tac" canta enquanto você está molhado.
Você se veste enquanto as vozes gritam.
O ponteiro está te seguindo desde o começo.

Sentado você abaixa a cabeça.
Lá vem Segundo, correndo por cima.
A cada som um novo presente.
A cada deixa um velho passado.

Corra, menino louco!
O Sr. Minuto está vindo pelo meio!
Ele te faz ficar com os olhos vidrados no relógio.
Ele te move lentamente, aperta teu pescoço.
Corra sonhando acordado.
O Sr. Segundo ainda te atormenta.
Cada som é um pedaço de ti.
Soa como uma moeda jogada no lago.

Deixe o ponteiro menor sacudir tua cabeça.
Deixe o frio abraçar teu calor.
Deite e durma para que o jogo recomece.
Tenha fé, menino louco.

A espera sempre tem um fim.
...O fim sempre é bom.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Dora

(Paulo Roberto)

Era fim de tarde, o frio estava querendo invadir os prados e eriçar os pelos dos animais. As corujas já estavam vigiando a entrada do bosque e as cobras estavam amaciando a grama. Os preás correndo loucamente em busca de comida enquanto a montanha pairava assustadoramente quieta. Tuba, a pequena rata, jamais teve coragem de subir além da 6ª rocha. Algumas lendas rondavam a montanha. Ali em cima, eram poucos os animais. Raposas, lobos, tigres, veados... Todos mais fortes, maiores e, sem dúvida, mais famintos. Qualquer coisa quente que pudesse explodir na boca e dar prazer com o sabor de nervos e ossos sendo retorcidos era válido. O fato é que, na verdade, todos os lindos animais que viviam ali tinham medo d'O Lobo. Ele era o único animal que descia das montanhas para buscar comida (Os outros apenas saciavam a sede no lago do outro lado do vale). Mesmo no rigoroso inverno, em que as pradarias rochosas se tornavam vastos campos invisíveis, os animais ficavam todos por lá. Famintos, sedentos, malditos. Mas ele, ele não. Não tinha orgulho. Era um bicho que sempre tinha a fera entre as garras, a besta entre as presas e a visão do inferno no olhar. Os pelos eram negros como os lábios da noite, macios como a carne do oráculo e fediam como abutres dissecados. Estava dormindo. Sonhava com um dragão. Esse sempre foi o único medo d'O Lobo. Não suportava a ideia de que alguém poderia ser mais forte e mais temido. No fim das contas ele só queria amor. Só queria amar... só queria poder amar. O coração estava cheio de dor e quase não batia. Apenas um lapso de “auto-compaixão” o deixava vivo. Estava respirando devagar. O ar da noite era seu preferido.

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Imagine, por favor, o barulho de um casulo explodindo. Agora, ajeite-se, sente-se confortavelmente e imagine uma linda borboleta azul voando perto de você. Imagine que o cheiro agora é o melhor do mundo. Imagine que um abraço te envolve enquanto tuas dores são extintas. Imagine Sarah. Suas asas eram lindas. Sabia que tinha pouquíssimo tempo de vida e não queria ser como todas as outras borboletas. Tinha algo a fazer ali. Voou alto. Muito alto. No meio de sua subida, sorriu. Avistou uma jovem raposa. Era fabulosa! Algo ali exalava alegria, o semblante despreocupado era fascinante! Brincava com folhas secas que alcançavam voo a cada pulo. Era tão bobo...
É difícil definir Dora. Extremamente difícil. A primeira vista, parecia mais uma raposa. Mais uma entre as tantas. Não era grande, não era assustadora e muito menos perigosa. Era simplesmente apaixonante. Era como uma rosa vermelha cheia de vida entre os lírios secos, surrados pelo tempo e abandonados por Deus. Era a luz que mais brilhava entre os vaga-lumes. Sarah apenas admirava. Quando ainda rastejava, ouviu todas as estórias malditas sobre O Lobo. Sabia que algo tinha de mudar para que o medo não fosse tão constante e que o receio não fosse o sentimento que mais abraçava os animais. Dora não era apenas um pedaço de carne, uma raposa exposta ou uma presa fácil para qualquer bicho maior. Dora era, em sua visão, a salvação do mundo. Ou de seu mundo, pelo menos.

O fato é que, se você tivesse apenas mais algumas horas de vida, o que faria?

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Uivou. Era incomum fazer isso pela manhã, mas o sol lhe energizava. Queria apenas lembrar aos ouvintes que o seu reinado era intocável. Esgueirou-se para uma fenda estreita onde jaziam os restos de um veado. Ainda tinha carne, seria a primeira refeição do dia.
A bocarra se cansou de morder, então O Lobo resolveu se deleitar com o medo nas feições das criaturas inferiores a ele. Metro por metro, foi descendo calmamente a montanha. As nuvens eram atravessadas com um certo ar jovial. Não sabia exatamente o motivo, mas sempre foi apaixonado pelas nuvens. Elas faziam o coração bater, assim como a Lua. Pena que não podia atravessar a Lua... Estava longe.

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Dora estagnou. Ouviu o urro da besta. Sarah farfalhou as asas e continuou calma, não havia motivos para pânico.

- Borboletas não devem ter um sabor tão bom, né?
- Você também ouviu? - Disse Dora com os olhos molhados
- Sim, acalme-se. Ele não fará nada contra você...
- ...e como sabe... erm... qual o seu nome mesmo?
- Sarah, minha cara raposa.
- Dora! Meu nome é Dora! - Incrível o que a inocência evoca numa raposa– O que faz aqui, tão alto? As borboletas não sobem tanto! Eu nunca vi uma por aqui!
- Vim procurar a salvação. Não para mim, não para nós... Mas para todos.
- Oi? - Disse virando o pescoço para a esquerda.
- Deixe-me explicar. Você, Dora... Você é especial. Basta observá-la por um tempo e olhar mais a fundo do que os olhos podem ver. Além dos pelos avermelhados, além do focinho negro e das orelhas. Dentro de toda essa pele, além dos músculos, além das veias e ossos, existe um coração pequenino e puro. Um coração que pode fazer grandes coisas em grandes bichos. Um coração que, dentro d'O Lobo, pode mudar tudo.

A perplexidade nos olhos de Dora era notável. Do que raios aquela linda borboleta falava? Sentia-se estranha. Como se o chão de pedra estivesse sumido e estivesse agora sobre o Éden. Sentia-se forte, o medo não existia como antes.

- Consegue me explicar melhor?
- Desça.
- Descer...?
- Desça a montanha, brinque com os ratos, corra com as lebres, dance com os macacos e role com as cobras. Todos temem o que há aqui em cima, mas você pode dar a eles a segurança e a paz que precisam! Se todos os animais descerem, o que será d'O Lobo? Apenas um animal morto por seu próprio rancor.

A inocência brilhou e ela aceitou o convite. Morria de curiosidade para conhecer aquela parte do mundo. Não sabia como era o bosque, só conhecia o outro lado da fenda. O lago azul era tudo que tinha visto da parte baixa da vida. Era estranho começar a descer pelo outro lado. Rochas enormes estavam pelo caminho. Só então notou o quão alto era o seu lar. Via algumas árvores, uma mar de verde. Uma cor diferente aqui, outra ali... Rosa e amarelo para quebrar a monotonia de toda aquela paisagem surreal e desconhecida por ela. Conseguiu contar, por auto, umas vinte rochas gigantescas por todo o caminho. Passou por vários animais, os guepardos urravam loucamente, incrédulos do que estavam vendo. Uma raposa, tão bela, tão pequena, tão frágil... Estava quebrando barreiras, estava alterando o ciclo, estava quebrando as regras. Faltava pouco. Sentiu o cheiro das frutas, ouviu os chocalhos das serpentes e se apaixonou pela melodia do cantos dos rouxinóis. Finalmente, tocou a grama. Finalmente conheceu o Éden.

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Alvoroço. Os animais estavam desnorteados, não sabiam mais o que fazer. Dora estava lá em baixo! As raposas começaram a uivar, um choro desesperado e confuso. Os bichos estavam correndo em círculos, não sabiam que caminho tomar. Em meio a urros e grunhidos desesperados, uma das raposas mais velhas decidiu descer. O semblante animalesco de todos os animais não existia. Estavam todos receosos e confusos. Numa marcha lenta e desencorajada, decidiram seguir. Decidiram descer, decidiram enfrentar A Besta, decidiram enfrentar a morte e todos os medos que acompanharam suas almas durante toda a vida. Era hora de lutar pela liberdade.

Enquanto isso, Dora estava maravilhada. Aquele era o melhor ambiente que já tinha visto. Os animais eram livres, os cheiros se misturavam e a leveza do ar apenas limpavam a alma. Eram tantos bichos, tantas plantas, tantas vidas, tanta luz, tantos sons... Barulho. Num súbito reflexo olhou para cima. Uma sombra horripilante se aproximava. Era como se todos os habitantes do alto da montanha estivessem descendo. Sarah sorriu. Tinha conseguido! Os olhos assustados e brilhantes eram bonitos de se ver. Tinham um brilho diferente. Um a um, tocaram o solo fofo. As raposas correram para pular em Dora. Era uma festa. Todos as outras especies começaram a olhar em volta. Que mundo era aquele? Era tudo tão belo! Começaram a se espalhar. Um a um, adentrando a mata, observando animais que, até então, eram estranhos. Em meio a brados de satisfação e sensação de liberdade, Sarah notou o espectro da Besta. O arrepio percorreu as entranhas de todos que olharam para cima. O cheiro de morte inundando o olfato, a visão do Inferno.

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Sentia-se bem. Havia algo errado. O silêncio lhe assustava, mas... por algum motivo, sentia-se diferente aquela manhã. Era como se o coração fizesse o mesmo som que fizera a muitos anos. Aquele som doce, ritmado e contínuo. Sentia o coração bater, sentia um arrepio a cada passo. Os pensamentos vagavam pelo lago, memórias de sua parceira morta por veneno e teimosia.
Estagnou. Não podia crer. Agora sim, sentia o coração lutar contra o peito. Estava com medo.
Olhou nos olhos de cada um, viu medo e coragem numa mescla de confusões. Ele estava confuso, estava com medo, estava incrédulo.

- O que fazem aqui? - Mesmo abalado, urrou como um trovão – Vocês sabem das regras, vocês sabem das MINHAS regras. Respondam, amigos. O que estão fazendo aqui?
- Olhe a sua volta, caro amigo. Você é um de nós. Não é nada além disso, Lobo! - Disse Sarah com sua voz aguda e calma – Tudo o que você diz ter, nós também temos!

Aquiesceu. Com lágrimas nos olhos, mas ainda firme, urrou para o mundo. Dora aproximou-se rapidamente. Nunca tinha visto O Lobo. A curiosidade maldita da pequena raposa lhe drenava a paz.
- Eu protejo vocês de todas as dores. Eu protejo vocês de todas as maldições dessa parte do vale. Minha parceira morreu aqui, enquanto todos esses bichos ridículos brincavam durante o verão. A dor que eu senti... Ninguém mais vai sentir. Lá em cima estão seguros. Não existem mosquitos do inferno, não existem aranhas e poucas são as cobras que se aventuram tão alto. E, lembrem-se, elas não possuem veneno. Aqui todo tipo de bicho maldito e peçonhento pode percorrer os corpos dos teus filhotes, os corpos de vocês! Fora que existem humanos aqui perto. Aquela maldita raça... A escolha é de vocês! Eu venho, como e volto. Façam o que tiverem de fazer. Nunca precisei de vocês. No fim das contas são vocês que precisam de mim.

Quando se preparava para seguir, ouviu-se um “Obrigado, Lobo”. O animal virou-se perplexo. Dora aproximou-se novamente.
- Obrigado. Apesar de tudo... suas intenções sempre foram boas. Mas não deixe de viver por isso. Não deixe de viver por medo. Você sempre se mostrou tão forte! Não viva isolado do mundo, longe dos outros lobos, dos outros animais... Longe da Vida! Fique conosco! Seja parte da grande família que somos. Seja parte do coletivo! Junto de todos você estará muito mais protegidos e nós teremos confiança para seguir progredindo. Veja, eu não sou uma raposa muito forte, muito grande ou nada disso. Mas eu consigo olhar pra você e ver que algo está faltando. Falta uma família. Falta amizade, falta amor! Lobo, você não precisa ser ruim, você não precisa comandar todas as espécies, você só precisa viver! Olha pra mim! Eu sou pequena, não me preocupo com nada e sou feliz! Você deveria viver mais e sofrer menos. Fique e nós o ajudaremos!

Lágrimas, dor, arrependimento, solidão, confusão... Tudo junto. O Lobo não sabia o que dizer. Só sabia que não voltaria para o alto da montanha. Sua casa não ficava além das nuvens. Tudo estava começando a ficar diferente. Conseguia enxergar as cores, conseguia ouvir o coração, conseguia apaziguar a alma. Bendita Dora. As palavras ditas ardiam no peito. A cada letra, um aperto. Era como um banho de culpa, o golpe de misericórdia.
- Eu fico. Eu fico!
Todos os animais bradaram, era como uma vitória sobre o arque inimigo. Agora eles poderiam ser livres e com a presença da Fera. Tinham até um certo carinho por ele... Afinal de contas, tudo fazia sentido. Dora mostrou ao mundo que foi um erro nobre. A intenção era a melhor possível. A execução, a pior. O perdão faz parte da vida, recomeçar as vezes é a melhor saída... E lá estava Sarah...

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O véu da noite estava sobre os ombros do céu. A Lua era cheia e poucas nuvens vigiavam o vale. Estavam todos dormindo. Sarah levantou voo. As asas pararam de responder, a respiração falhou e a brisa lhe soprou aos ouvidos a marcha fúnebre da vida. O manto da morte lhe cobriu, seu corpo inerte desabou sobre a terra. A chuva caiu.
Havia conseguido tudo. Dora mudou o mundo. Ou pelo menos... Seu mundo. A paz governará esta terra sem reis enquanto Dora manter o espírito. Não se trata de aparência, é puro sentimento. Pura fé. Você só precisa de você.

...E o que faria se tivesse apenas algumas horas de vida?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Espelho

(Paulo Roberto)

Seu cálice cheio sobre a cômoda...
Você tira meu vestido com zelo e desejo.
Toca minha carne, inala meu perfume.
Acaricia minha face delicada,
A cor dos meus olhos te derruba.
Meu sorriso acelera teu coração enquanto minhas mãos te arrepiam.
Meus sussurros te fascinam e meus lábios te aquecem.
Posso prendê-lo com os olhos nessa cama toda a noite.

Você sente algo louco e fixo por minhas pernas,
Eu brinco com teus lábios enquanto você fantasia com meu corpo.
Tuas mãos sempre procuram o que o desejo assopra nos ouvidos,
Tua mente, louca mente, sempre cria quando te toco.

Eu sei que sente meu cheiro quando acorda.
Sei que deseja meu calor quando o frio te corta os sonhos,
Sei que sonha com o futuro, com um pequeno número ímpar.
Sei que fará tudo para que nossos dias sejam únicos.

Você não esquece da minha voz e repete mentalmente:
"Tudo o que eu preciso é ter você comigo."
Meu abraço é teu bem mais valioso,
Meu amor é como um filho que carregas dentro do peito.

Sei que me ama e que nada te fará mudar,
Sei que acredita no futuro, sei que não vai hesitar.
Sentirás saudades de sorrir bobamente todas as noites...
...Mas sei que estará lá quando eu finalmente puder voltar.